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O que um cigarro faz com nosso pulmão.


O tabagismo é um hábito muito antigo, que provavelmente teve início com os povos indígenas. Com o descobrimento das Américas, foi levado para a Europa e rapidamente se disseminou.

Porém, pouco tempo tem que sabemos dos malefícios desse hábito.

Campanhas publicitárias têm ajudado a disseminar informações a respeito dos efeitos nocivos do fumo na saúde humana. E definitivamente a proibição de qualquer tipo de propaganda relacionada ao cigarro vem fazendo com que esse hábito tão maléfico seja aos poucos abandonado e esquecido pela população.

Antes de tratarmos dos efeitos do cigarro sobre o sistema respiratório, gostaria de contar um pouco sobre o funcionamento normal da nossa árvore respiratória.

Nosso organismo necessita de oxigênio para funcionar, e esse oxigênio é extraído do ar ambiente que nos circunda.

A cada inspiração, levamos ar novo, rico em oxigênio, para nossos pulmões, e, a cada expiração, expelimos, o gás carbônico, nocivo para o nosso organismo, fruto dos processos metabólicos que ocorrem a nível celular. Essa troca de gases entre o ar e o nosso sangue ocorre nos alvéolos dos pulmões.


Esquema mostrando conjuntos de alvéolos pulmonares, com sua estreita relação com os vasos sanguíneos, o que possibilita as trocas de oxigenio e CO2.

Os alvéolos pulmonares são estruturas muito pequenas que se assemelham a pequenos saquinhos cheios de ar com paredes muito finas por onde passam vasos sanguíneos. Através dessa parede fina é que ocorrem as trocas gasosas. O oxigênio passa do ar que está no interior do alvéolo para o sangue, e o gás carbônico passa do sangue para o ar,  para ser expelido na expiração.

Na parede do alvéolo, encontramos uma célula chamada macrófago  alveolar, ou célula da poeira. A célula da poeira é o lixeiro do alvéolo, que literalmente come qualquer partícula de sujeira que possa ter entrado junto com o ar inspirado. Depois de absorver essas partículas, a célula da poeira as digere através de enzimas muito fortes que ficam no seu interior. Essa célula da poeira vive sua vida presa à parede do alvéolo.

Quando essas células estão se aproximando do final de sua vida útil, elas se destacam da parede e caem dentro do alvéolo.

No interior dos alvéolos existe o muco, presente em toda a árvore respiratória. Esse muco é produzido pelo pulmão, e é trazido até a garganta pelo movimento de pequenos cílios encontrados na superfície das células da mucosa respiratória que recobrem os brônquios e os bronquíolos. Os brônquios e os bronquíolos são os “tubos” que levam o ar até os alvéolos.
Estes cílios são estruturas incríveis que se movimentam em um único sentido, batendo de baixo para cima, empurrando o muco até a garganta.

Quando o muco chega na garganta, ele é engolido junto com a saliva e é levado para o estômago, para ser digerido pelas enzimas fortíssimas do suco gástrico. Todos os dias engolimos sem perceber em torno de um copo de muco da árvore respiratória.

Quando a célula de poeira que já comeu todas as sujeiras que chegaram até os alvéolos se aproxima de sua morte, ela se destaca da parede do alvéolo e cai no muco, e nesse muco é trazida até a garganta pelo movimento dos
cílios para ser engolida e digerida pelo trato gastrointestinal. Esse é o  funcionamento normal da nossa via aérea.

Agora vamos ver o que acontece quando fumamos um cigarro...

O cigarro é um agente irritativo da via aérea. Irritando a mucosa, esta tenta se defender produzindo mais muco. Porém o efeito mais notável do cigarro sobre as células da mucosa é que ele é capaz de paralisar os cílios que movimentam o muco. Cada cigarro fumado paralisa os cílios por aproximadamente 10 minutos. Durante esses 10 minutos em que os cílios ficam paralisados, o muco se acumula nos alvéolos. Quando os cílios começam a se movimentar novamente, um novo cigarro os paralisa por mais 10 minutos,  e assim repetidamente a cada cigarro fumado.

Sendo assim, os alvéolos dos fumantes ficam cheios de muco, o que pode ser observado pela tosse produtiva que todos os fumantes apresentam. Mas o maior problema é que nesse muco acumulado no interior dos alvéolos se encontram aquelas células de poeira que estão no final da sua vida e que não conseguirão chegar até a garganta para serem engolidas.

Essas células de limpeza então morrem no interior dos alvéolos, dentro do muco, e se rompem, liberando todas as suas enzimas digestivas dentro do alvéolo. Essas enzimas digestivas,  capazes de destruir as impurezas captadas do ar, também são capazes de digerir outras proteínas, e é isso que começa a ocorrer. As enzimas digestivas das células de poeira começam então a digerir a parede fina do alvéolo, destruindo-a muitas vezes completamente, e fazendo com o que o alvéolo perca a parede que o separava do outro alvéolo do lado, e formando assim um alvéolo maior, com menos superfície para a troca dos gases.

Imagine isso acontecendo em todo o pulmão. Começam então a se formar as chamadas bolhas de enfisema, que, dependendo do seu tamanho, podem até ser vistas em radiografias! Essas bolhas de enfisema têm uma superfície de troca muito menor do que tinham originalmente, fazendo com que as trocas de oxigênio e gás carbônico ao nível dos alvéolos se faça de uma maneira muito mais difícil.

A lesão dos alvéolos gera uma cicatriz, pequena e localizada. Mas imagine que esse processo ocorre em todo o pulmão, e que essas cicatrizes são generalizadas. Os pulmões dos fumantes, cheios de cicatrizes, acabam ficando duros, com uma menor capacidade elástica, não conseguindo se expandir e se contrair como os pulmões normais, gerando todo o quadro conhecido como enfisema pulmonar.

O interessante é que temos dois pulmões, mas precisamos somente de meio pulmão para sobreviver. Cirurgias retiram um pulmão inteiro de pacientes, e estes ainda conseguem levar uma vida normal somente com um pulmão. Isso acontece porque temos uma reserva muito grande de função pulmonar, reserva esta chamada de reserva funcional. Como conseguimos viver bem com meio pulmão, temos um pulmão e meio de reserva, que utilizamos nos momentos em que precisamos de mais oxigênio, como quando corremos ou fazemos qualquer atividade física.

À medida que as enzimas digestivas das células de poeira digerem os alvéolos, vamos perdendo nossa reserva. Só que, como normalmente não precisamos dessa reserva, não sentimos nada. Precisamos ter uma perda muito grande de alvéolos para que os sintomas comecem a aparecer.

Mas você pode imaginar que quando começamos a ter sintomas é porque já perdemos muito pulmão, e qualquer nova perda já não ocorre na reserva, e sim naquele restinho de pulmão que precisamos para sobreviver.  

É por isso que os fumantes ficam muito tempo sem ter qualquer sintoma. Mas quando começam a ter, estes evoluem rapidamente. Essas pessoas começam a ter falta de ar quando fazem grandes esforços, mas isso vai piorando gradativamente, até que elas chegam a ter dificuldade para respirar mesmo nas atividades cotidianas simples, como escovar os dentes ou caminhar. E como o pulmão não é capaz de se regenerar, esses sintomas, depois que começam, são irreversíveis.

O abandono do tabagismo estabiliza a perda, mas a função pulmonar perdida não volta mais. E viver com falta de ar é afogar-se permanentemente, algo que não desejamos pra ninguém, muito menos pra nós mesmos!!!

E estes são os efeitos do cigarro somente sobre a árvore respiratória. Ele também causa malefícios a muitos outros órgãos do nosso corpo. Por isso lembre-se que nunca é tarde para parar de fumar! O processo de destruição dos pulmões acontece a todos os fumantes, em alguns mais sensíveis mais rapidamente, em outros mais lentamente, mas em todos. Só não terão sintomas de enfisema pulmonar aqueles fumantes que morrerem antes da evolução de seu enfisema. O que também não é difícil, já que outros problemas de saúde também estão relacionados ao tabagismo, como o infarto e o câncer. Mas isso já é assunto para outro texto.
O fumo é a maior causa de morte evitável do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde.
Pare de fumar enquanto há tempo! Seus pulmões irão lhe agradecer muito!  E você será muito mais interessante, acredite.

Dr. Antonio Greca Born
Cirurgião Plástico
Membro SBCP